A Riqueza da Tranquilidade

Uma refrescante gota de sabedoria que nos vem das filosofias orientais antigas é aquela que compara a vida a um rio.

Todo rio, em seu estado natural, é um fenômeno perfeito em seu funcionamento na natureza. Ele segue sempre na direção do mar. Sem ter a capacidade humana de pensar, e também desprovido da emoção do medo, ele faz tudo certo, dia após dia… Ele segue o seu curso.

Seres humanos são elementos da natureza, assim como as árvores, os animais, o vento… e os rios. Não fomos criados para “usar” a natureza. Nós somos natureza, parte dela, muito embora não nos sintamos assim. Nós, na Terra, nos comportamos mais semelhantemente ao vírus, que entra em um organismo apenas para consumi-lo até o fim. Deveríamos, contudo, ser como os rios.

Entretanto, houve um tempo, tempo este que nenhuma ciência seria capaz de demarcar com precisão, em que o ser humano decidiu dar ordens aos rumos do curso de sua vida. E acreditando seriamente que os rumos do curso pudessem ser por ele determinados, passou a frustrar-se toda vez que a realidade dos fatos mostrava o contrário. A vida humana é um rio. E o rio tem seu próprio curso. E este curso muitas vezes não coincide com aquele que nossa mente sofisticada para criar pensamentos, havia planejado. Nossos desejos, muitos deles, são ingênuos ou até loucos. Não foi sem razão que Arthur Schopenhauer asseverou que o homem é um ser eternamente insatisfeito, e que sempre descerá à sepultura querendo ter vivido mais, e ter feito mais. É porque quando nós vivemos lutando “contra” a natureza, que somos nós mesmos, sempre perdemos no final.

E é por alucinar a ideia de que somos capazes de mudar os rumos da natureza, para que ela somente faça aquilo que nos traga algum benefício, é que poucas mentes privilegiadas em conhecimento sabem decifrar inteiramente o que disse Richard Dawkins em sua frase: “A natureza não é cruel, apenas implacavelmente indiferente.”

A indiferença da natureza manifesta-se toda vez que ela nos convence, ao constrangimento de ficarmos calados e impotentes, de que o curso de nossa vida vai seguir implacavelmente para onde ela quer, contrariando, assim, os nossos iludidos desejos de que “teria” que ser diferente. E não importa quão amargas serão minhas lágrimas. Ela não ouvirá o meu clamor.

Todo problema (para ser mesmo conceitualmente um problema), deve trazer em si próprio em latência a possibilidade de solução. Aquilo que não possui nenhuma possibilidade de solução, e, no entanto, o entristece, não é um problema. Trata-se de um curso que você deve obrigatoriamente seguir. Se você disser que o maior problema de sua vida foi ter nascido no Brasil, isto não é um problema, pois não é possível você anular este seu nascimento e voltar a nascer em algum outro país de sua preferência, logo, deverá buscar uma forma de ser feliz dentro deste curso… não esquecendo que este é o seu rio.

É muito natural que em meio a qualquer crise, familiar, financeira, social, nos sintamos angustiados. Estar angustiado é diferente de estar protestando contra a vida. Quando protestamos contra a vida e seu curso, estamos digladiando com um adversário invencível.

Talvez a maior conquista do ser humano em toda a sua existência seja compreender isto, que ele deve sim buscar toda forma de sucessos e realizações conforme seus planos, mas nunca se esquecendo de que é inútil o desespero diante do inevitável, e que, em meio a todo o seu patrimônio acumulado, uma de suas maiores fortunas é A RIQUEZA DA TRANQUILIDADE.

Carpe Diem ! 🌻

Dr. José Fernandes [Psicanalista Clínico]
Atendimentos Presencial e On-line.
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12 comentários em “A Riqueza da Tranquilidade”

  1. Que texto lindo, que honra poder desfrutar de cada palavra nele citada, parabéns ao autor desta maravilha. Para mim só afirmou o que ja vivo, preciso ser feliz e ter paz no presente, independente do futuro, ou do passado, aceitar as circunstancias e conviver com ela de forma amigável, fazer o bem, e viver a minha realidade.

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  2. Raramente li um texto que se relacionasse tão integralmente com o título. Não apenas pela mensagem que ele traz (que por si só já nos enche de paz), mas pela fluência de cada palavra, pelo ritmo de cada linha, uma leitura tão tranquila quanto o curso de um rio manso.

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    • Obg Farley! Receber suas palavras é como receber um presente (mesmo quando vier a se tratar de uma crítica, aliás, especialmente neste caso, pois vê-lo agigantar-se no saber das Letras só causa em mim uma sensação: a de que me agiganto junto.)🙏👏👏👏

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