Objetos ou Pessoas

A maioria das pessoas com mais de trinta anos de idade recorda-se de quando o nosso vovô tinha no pulso aquele relógio o qual ele não vendia por preço nenhum, à prova d’água, que havia sido do pai dele, este que, por sua vez, tinha herdado de seu avô.

Também se recorda de quando havia sapateiros, costureiras, alfaiates e consertadores de coisas em geral.

O mundo hoje está diferente. Os relógios dos vovôs já não são mais tão resistentes como aqueles do passado; os sapateiros, as costureiras, os alfaiates quase já desapareceram por completo. E consertar coisas só vale a pena nos poucos casos em que o preço do conserto seja bem menor do que o valor do mesmo objeto novo, o que vem acontecendo cada vez menos.

Esta é uma pequena faceta do “mundo líquido”. O mundo em que vivemos hoje, onde tudo tende a ser facilmente descartado, pois um novo objeto estará sempre ali, à nossa disposição, em condições mais favoráveis.

Até mesmo uma roupa que custe caro, porque dura muito, deixou de ser o desejo de muitos usuários, porque, se a roupa realmente durar muito tempo, ela cairá de moda, tornar-se-á ridícula, perde-se o sentido de usá-la. É preciso mudar de roupa, mesmo que ela não se tenha “materialmente” acabado, mas seu lugar no mundo acabou. Este é o mundo líquido. Tudo, necessariamente, em qualquer condição, precisa ser mudado, e muitas vezes, precisa ser mudado muito rapidamente.

Este é um fato óbvio diante dos olhos de qualquer pessoa, na atualidade. A transitoriedade e o aspecto “descartável” de tudo. E quem documentou este fenômeno de abrangência planetária, em mais de 50 livros que publicou, foi o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, falecido em 2017, aos 91 anos de idade.

Estaria tudo bem, se uma das facetas do mundo líquido também não tivesse afetado os relacionamentos entre as pessoas, especialmente os relacionamentos amorosos.

Da mesma forma como se descartam objetos, descartam-se pessoas. Estão se acabando as conversas entre casais, com o objetivo de “consertar” a relação. O que existe é uma coisa que ganhou como nome uma gíria de apenas duas letras: “DR”. Um momento de “DR” quase sempre se resume numa disputa entre duas pessoas, em que cada uma quer ter razão. E nada mais. Não é a relação que se deseja preservar ali, e sim as próprias convicções e o próprio “ego” de cada um. E não é à toa que quando a pessoa se separa, daí a pouco estará expondo em rede social uma bela selfie com a legenda: “Amor próprio”, pois, no fundo, era sempre este o tipo de “amor” que ela defendia nas DRs, mas por inadequado que seria expor isso, agora sim, isto aflora publicamente, em forma de alívio.

O mundo líquido abalou profundamente em nós a nossa capacidade de amar. Porque o amor requer ser construído demoradamente, pacientemente, um pouco por dia. E são necessárias boas doses de perseverança, pois não se percorre esse caminho sem por ele encontrar pedras. O amor é feito de descobertas, algumas não agradáveis, e nós perdemos todo o interesse, tanto por construir como por consertar, como faziam nossos avós com seus relógios seculares.

Pois, diferente dos nossos avós, que teriam uma enorme dificuldade para obter outro relógio de mesma qualidade e durabilidade, caso não cuidassem muito bem do seu, nós temos ao nosso redor todas as ofertas de troca por um novo, tanto faz sejam OBJETOS OU PESSOAS.

* Carpe Diem 🌻


José Fernandes.

[ Psicanalista Clínico – ESPO: 0505-47]

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